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BDNF e neuroplasticidade: o papel do fator neurotrófico derivado do cérebro na adaptação neuronal

  • 1 day ago
  • 6 min read
LabRx

O BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), ou fator neurotrófico derivado do cérebro, é uma neurotrofina envolvida na sobrevivência neuronal, na modulação das conexões sinápticas e nos mecanismos que permitem ao sistema nervoso modificar sua organização em resposta à atividade e às experiências. Por isso, sua relação com a neuroplasticidade tem recebido atenção crescente na investigação da cognição, do envelhecimento e de diferentes condições neurológicas e psiquiátricas.

Entretanto, interpretar o BDNF apenas como uma molécula que "aumenta a neuroplasticidade" simplifica uma biologia consideravelmente mais complexa. O BDNF é sintetizado em diferentes formas moleculares, interage com receptores distintos e participa de vias intracelulares capazes de modificar a transmissão sináptica. Além disso, quando o BDNF é avaliado no sangue, aspectos pré-analíticos e a participação das plaquetas tornam-se particularmente relevantes para a interpretação do resultado.  


O que é BDNF?

O BDNF pertence à família das neurotrofinas e participa de processos relacionados à diferenciação, sobrevivência e função neuronal, crescimento axonal e plasticidade sináptica. Sua atuação é particularmente relevante em regiões cerebrais caracterizadas por elevada capacidade plástica, incluindo o córtex e o hipocampo.

Sua síntese ocorre inicialmente na forma de pre-pro-BDNF. Após processamento, é formado o pro-BDNF, que pode posteriormente ser convertido em BDNF maduro, ou m-BDNF. Essas formas não devem ser consideradas funcionalmente equivalentes. O BDNF maduro apresenta elevada afinidade pelo receptor TrkB, enquanto o pro-BDNF interage preferencialmente com outras vias receptoras, incluindo p75NTR.

Essa distinção é importante porque a função biológica do BDNF depende não somente de sua concentração, mas também da forma molecular, do receptor ativado e do contexto celular.


BDNF-TrkB: uma das principais vias moleculares da plasticidade sináptica

A ligação do BDNF maduro ao receptor TrkB desencadeia dimerização e fosforilação do receptor, iniciando cascatas intracelulares relacionadas à sobrevivência neuronal e à modificação da atividade sináptica.

Essa sinalização ajuda a explicar por que o BDNF ocupa posição central na biologia da neuroplasticidade.


BDNF e potenciação de longa duração

Um dos fenômenos mais importantes nesse contexto é a potenciação de longa duração, ou LTP (long-term potentiation), processo no qual determinadas conexões sinápticas apresentam aumento persistente de sua eficiência após padrões específicos de estimulação.

Estudos experimentais demonstraram que a redução da expressão de BDNF compromete a LTP hipocampal e que a inibição da atividade do BDNF também reduz sua magnitude. Esses achados sustentam a participação da sinalização BDNF-TrkB na indução e/ou manutenção da plasticidade sináptica no hipocampo.

Assim, existe uma ligação molecular entre BDNF, remodelamento sináptico e processos envolvidos em aprendizagem e memória.


BDNF não é produzido exclusivamente no cérebro

Apesar do nome fator neurotrófico derivado do cérebro, a biologia periférica do BDNF é relevante. A proteína está presente no sistema nervoso, mas sua dinâmica circulante envolve outros tecidos e componentes sanguíneos.

Essa questão torna-se especialmente importante quando se utiliza uma amostra periférica para avaliar o biomarcador.

No sangue, o BDNF pode ser considerado em dois compartimentos principais:

  • BDNF associado às plaquetas;

  • BDNF livre circulante no plasma.

O soro apresenta concentrações substancialmente maiores que o plasma, justamente porque as plaquetas armazenam grande quantidade do BDNF circulante e podem liberá-lo durante a coagulação. A literatura utilizada neste artigo descreve as plaquetas como o principal transportador sanguíneo de BDNF e indica que a maior parte do BDNF presente no sangue está associada a elas.  

Esse aspecto impede uma interpretação simplista na qual a concentração periférica seria considerada uma medida direta da quantidade de BDNF existente no cérebro.


BDNF periférico é igual a BDNF cerebral?

Não necessariamente.

Existem evidências de liberação cerebral de BDNF para a circulação, inclusive em estudos que avaliaram diferenças entre concentrações arteriais e venosas jugulares durante o exercício. Entretanto, a própria literatura ressalta limitações para determinar quantitativamente quanto do BDNF circulante deriva diretamente do cérebro. A liberação pelas plaquetas e a contribuição de fontes periféricas precisam ser consideradas.  

Esse ponto é particularmente importante na prática clínica. A mensuração periférica de BDNF deve ser interpretada como avaliação de um biomarcador circulante relacionado à biologia neurotrófica, e não como uma leitura direta da concentração de BDNF dentro do hipocampo ou de outra região cerebral.


BDNF e exercício físico: por que essa relação é tão estudada?

A atividade física representa um dos estímulos fisiológicos mais investigados em relação ao BDNF.

A literatura descreve aumento da expressão de BDNF associado ao exercício e relaciona esse mecanismo às adaptações cerebrais promovidas pela atividade física. O material de referência da LabRx também destaca a participação do exercício na modulação do BDNF e da neuroplasticidade.  

Em humanos, entretanto, a resposta circulante precisa ser interpretada considerando modalidade, intensidade, duração do exercício, momento da coleta e tipo de amostra analisada. Revisões da literatura mostram que soro e plasma não representam compartimentos intercambiáveis, o que contribui para diferenças entre os resultados encontrados nos estudos.

Além disso, durante o exercício, alterações no fluxo sanguíneo e no estresse de cisalhamento podem influenciar a liberação plaquetária de BDNF. Portanto, uma elevação circulante aguda não deve ser atribuída automaticamente a uma única fonte tecidual.

Há ainda evidências experimentais de comunicação entre músculo e cérebro. A literatura descreve uma possível participação da via PGC-1α/FNDC5 na regulação da expressão hipocampal de BDNF em resposta à contração muscular, reforçando que a resposta ao exercício envolve comunicação sistêmica e não somente um fenômeno restrito ao tecido cerebral.


BDNF, estresse e neuroplasticidade

A relação entre BDNF e saúde cerebral também precisa ser compreendida dentro do ambiente neuroendócrino.

O material institucional utilizado como referência relaciona a hiperatividade prolongada do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e a exposição persistente ao cortisol a prejuízos da neuroplasticidade. Ao mesmo tempo, descreve o exercício físico como modulador da resposta ao estresse e do funcionamento neuroendócrino.

Isso é clinicamente relevante porque BDNF, resposta ao estresse, inflamação e neurotransmissão não funcionam como sistemas isolados. A interpretação do biomarcador ganha maior significado quando inserida no contexto fisiológico e clínico do paciente.


BDNF e neuroinflamação

Outro ponto importante é a interação entre BDNF e mecanismos neuroinflamatórios.

As referências fornecidas descrevem participação do BDNF na comunicação entre astrócitos e micróglia e na regulação de mecanismos inflamatórios. Há também dados experimentais envolvendo diferenciação de precursores de oligodendrócitos, neuroproteção e crescimento axonal.

Essa relação é bidirecional e complexa. Células do sistema imune também podem produzir BDNF, e diferentes estados inflamatórios podem alterar suas concentrações periféricas. Consequentemente, BDNF não deve ser interpretado isoladamente como um marcador específico de neuroinflamação ou de uma doença determinada.


BDNF reduzido significa doença?

Não de forma isolada.

Níveis reduzidos de BDNF foram descritos em diferentes condições neurológicas e psiquiátricas. O material institucional relaciona concentrações menores a condições como depressão e doenças neurodegenerativas, enquanto revisões científicas também descrevem associações entre BDNF e diferentes doenças do sistema nervoso.

Na depressão, por exemplo, metanálises incluídas nas referências fornecidas identificaram associação entre concentrações séricas de BDNF e o transtorno depressivo, além de alterações relacionadas ao tratamento antidepressivo.

Isso, porém, não transforma o BDNF em um marcador diagnóstico isolado de depressão, neurodegeneração ou outra condição clínica. Associação biológica e capacidade diagnóstica são conceitos diferentes.

A heterogeneidade dos achados fica evidente em outras doenças. Na esclerose múltipla, por exemplo, existem estudos mostrando BDNF reduzido, aumentado ou sem diferença significativa, dependendo da amostra, estágio da doença e população investigada.


Por que acompanhar BDNF em vez de interpretá-lo como uma medida estática?

A característica mais interessante do BDNF talvez não seja apenas sua associação com determinados estados fisiológicos, mas sua natureza dinâmica.

Exercício, condições neuroendócrinas, processos inflamatórios e intervenções terapêuticas podem modificar sua expressão ou suas concentrações circulantes. O material institucional propõe justamente a avaliação do BDNF dentro de uma lógica de acompanhamento da neuroplasticidade e da resposta a intervenções.

Nesse cenário, avaliações seriadas podem oferecer uma perspectiva diferente de uma determinação isolada, desde que sejam mantidas condições pré-analíticas adequadas e que os resultados sejam integrados ao quadro clínico.

O valor do BDNF está menos em funcionar como um "número da neuroplasticidade" e mais em acrescentar informação objetiva sobre um sistema biológico envolvido na adaptação neuronal.


BDNF como biomarcador: o que precisa ser considerado na interpretação clínica?

A avaliação periférica do BDNF apresenta potencial como ferramenta complementar, mas exige padronização e contextualização.

Tipo de amostra, participação plaquetária, atividade física próxima à coleta e condições fisiológicas capazes de alterar o BDNF podem influenciar o resultado. A literatura especificamente alerta que diferenças metodológicas entre soro e plasma modificam substancialmente a interpretação das concentrações circulantes.

Portanto, a utilização clínica deve evitar dois extremos: considerar o BDNF apenas como uma molécula experimental sem possível utilidade clínica ou, no sentido oposto, tratá-lo como uma medida direta e definitiva da "saúde cerebral".

BDNF é um biomarcador biologicamente relevante, mas seu resultado precisa ser interpretado em conjunto com história clínica, intervenções realizadas, outros marcadores e condições de coleta.

A sinalização BDNF-TrkB fornece uma base molecular consistente para a participação dessa neurotrofina na plasticidade sináptica. Ao mesmo tempo, a dinâmica do BDNF circulante mostra por que sua mensuração exige critérios metodológicos e interpretação cuidadosa. Em vez de representar uma fotografia direta do cérebro, o BDNF periférico oferece uma janela complementar para acompanhar processos relacionados à neurotrofia e à adaptação neuronal, especialmente quando avaliado longitudinalmente e dentro de um contexto clínico bem definido.

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