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Vias de Metabolização do Estrogênio: CYP1A1, CYP1B1, COMT e o Elo entre Quinonas Genotóxicas e o Estroboloma


CoproOne Estroboloma

Quando falamos em “metabolismo do estrogênio”, muitas vezes a conversa fica restrita ao fígado e à depuração hormonal. Na prática, porém, o metabolismo do 17β-estradiol (E2) e da estrona (E1) é um determinante bioquímico de risco, porque não se limita a inativar hormônios: ele pode gerar intermediários altamente reativos, capazes de oxidar DNA, formar adutos mutagênicos e alimentar processos de iniciação tumoral em tecidos hormônio-dependentes. É justamente nesse ponto que a discussão deixa de ser “hormônio em excesso” e passa a ser “qual via metabólica está predominando” e “quão eficiente é a etapa de neutralização”.

Dois eixos se complementam na carcinogênese relacionada ao estrogênio: (1) estímulo proliferativo mediado por receptor de estrogênio (ER) e (2) eixo genotóxico, em que E2/E1 são oxidados a catecolestrogênios e, posteriormente, a quinonas reativas que geram dano oxidativo e adutos depurinantes com adenina e guanina. O microtema deste texto é o eixo genotóxico, com foco na balança CYP1A1→2-hidroxilação (mais protetora) versus CYP1B1→4-hidroxilação (mais genotóxica) e no papel central da COMT em “desarmar” catecolestrogênios antes que virem quinonas.


Visão geral das rotas: fase I (hidroxilação) e fase II (conjugação/desintoxicação)

E2 e E1 podem ser metabolizados por reações de fase I (principalmente hidroxilações), gerando três famílias relevantes de metabólitos:

  • 2-hidroxiestrógenos (ex.: 2-hidroxiestradiol, 2-OHE2).

  • 4-hidroxiestrógenos (ex.: 4-hidroxiestradiol, 4-OHE2).

  • 16α-hidroxiestrona (16α-OHE1) (mais discutida pelo perfil estrogênico/proliferativo).

Para o eixo genotóxico, a história se concentra nos catecolestrogênios (2-OH e 4-OH). Esses catecóis podem seguir dois destinos metabólicos com implicações opostas:

  1. Oxidação a semiquinonas/quinonas, com potencial de redox cycling, geração de ROS e reação direta com DNA.

  2. Conjugação/desintoxicação, principalmente por:

    • COMT (catecol-O-metiltransferase): metila catecóis → metoxiestrógenos (menos reativos).

    • NQO1: reduz quinonas de volta a catecóis (efeito “anti-quinona”).

    • GSTs: conjugam quinonas via glutationa, favorecendo eliminação.

A leitura clínica: quanto maior a formação de quinonas e menor a eficiência das vias protetoras (COMT/NQO1/GST), maior a probabilidade de adutos e dano genômico.


CYP1A1 e a via 2-hidroxilação: por que é considerada mais “protetora”


CYP1A1 → 2-OHE2

A CYP1A1 catalisa predominantemente a 2-hidroxilação de E2, formando 2-OHE2. Ele ainda é um catecol, mas, em comparação com a rota 4-OH, está associado a menor propensão à formação de adutos depurinantes altamente mutagênicos.


COMT como ponte para metabólitos funcionalmente “inertes”

Ao metilar 2-OHE2, a COMT forma 2-metoxiestradiol (2-MeOE2), um metabólito com baixa atividade estrogênica e frequentemente descrito como antiproliferativo/antiangiogênico em modelos experimentais. Além disso, metoxiestrógenos podem exercer feedback inibitório sobre CYP1A1 e CYP1B1, reduzindo a própria geração de catecóis (um “freio endógeno” quando o sistema está equilibrado).


O que desequilibra a “proteção” dessa rota?

Mesmo uma via mais protetora depende de:

  • disponibilidade de substrato (E2/E1),

  • competição CYP1A1 vs CYP1B1,

  • velocidade de metilação por COMT,

  • capacidade conjugadora/antioxidante (NQO1, GST).

Em outras palavras: não basta produzir 2-OH; é crucial metilar/eliminar rapidamente.


CYP1B1 e a via 4-hidroxilação: o caminho mais associado à genotoxicidade


CYP1B1 → 4-OHE2

A CYP1B1 converte E2 em 4-OHE2. Esse catecol é particularmente relevante porque sua oxidação favorece a formação de E2/E1-3,4-quinonas, descritas como mais reativas com o DNA e mais associadas à formação de adutos depurinantes.


Quinonas e adutos depurinantes: a lesão que abre caminho para mutação

As quinonas derivadas de 4-OHE2 podem reagir com DNA formando adutos depurinantes em:

  • N3 da adenina, e

  • N7 da guanina.

Esses adutos são instáveis e levam à perda da base (sítio apurínico). O reparo desses sítios, especialmente em ambiente com estresse oxidativo e alta proliferação, aumenta a chance de mutações fixadas.


Por que isso importa em mama, endométrio e colo uterino?

Tecido-alvo pode apresentar concentrações locais de estrogênios superiores às plasmáticas por produção local e/ou recirculação. Assim, há plausibilidade biológica para geração local de catecóis/quinonas em níveis relevantes, somando-se ao estímulo proliferativo via ER.


COMT: o “ponto de controle” que separa catecolestrogênios de quinonas genotóxicas


O que a COMT faz

A COMT transfere um grupamento metil para o anel catecol, convertendo:

  • 2-OHE2 → 2-MeOE2

  • 4-OHE2 → 4-MeOE2

Isso reduz:

  • redox cycling,

  • oxidação a quinonas,

  • formação de adutos com DNA.

Na prática, a COMT é uma etapa de desintoxicação funcional para catecolestrogênios.


Baixa atividade/variantes genéticas da COMT

Quando há baixa atividade enzimática (por menor expressão, inibição funcional ou polimorfismos), aumenta a fração de catecolestrogênios que escapa da metilação e pode ser oxidada a quinonas. Em modelos celulares, a inibição de COMT foi associada a aumento de adutos estrogênio–DNA, reforçando a COMT como via protetora.


Uma regra prática de risco bioquímico

  • CYP1B1↑ + COMT↓ = mais 4-OHE2 não metilado → mais quinonas → mais adutos de DNA.

  • COMT eficiente + NQO1/GST adequados = deslocamento para metoxiestrógenos/conjugados, reduzindo dano.


O “mapa bioquímico” da genotoxicidade: do E2 ao aduto de DNA

Uma visualização direta:

  1. E2/E1 (substrato)

  2. CYP1A1 → 2-OHE2 (tende a menor genotoxicidade)CYP1B1 → 4-OHE2 (tende a maior genotoxicidade)

  3. Catecol → quinona (oxidação)

  4. Quinona + DNA → adutos depurinantes (N3Ade, N7Gua)

  5. Sítio apurínico → reparo propenso a erro → mutações

  6. Iniciação tumoral, especialmente em contexto de proliferação via ER

E o freio mais direto antes do passo 3 é COMT (somado a NQO1/GST).


Integração essencial: metabolização também é recirculação (estroboloma)

Mesmo com conjugação hepática eficiente, uma fração relevante de estrogênios é glucuronidada/sulfatada, excretada na bile e chega ao intestino. Nesse ponto, o estroboloma pode aumentar a exposição efetiva.


Estroboloma e β-glucuronidase: reativação intestinal de estrogênios

O estroboloma inclui genes microbianos que modulam estrogênios, com destaque para a β-glucuronidase. Quando a atividade de β-glucuronidase está elevada, ocorre maior desconjugação de estrogênios glucuronidados, favorecendo:

  • reativação luminal,

  • reabsorção (recirculação entero-hepática),

  • aumento do “body burden” estrogênico.

Do ponto de vista mecanístico: mais recirculação = mais substrato (E2/E1) disponível para entrar novamente em rotas CYP1A1/CYP1B1, o que torna ainda mais relevante a eficiência de COMT e demais vias de neutralização para limitar quinonas e adutos.


O ponto central é que o risco associado ao estrogênio não se resume à concentração sérica. Ele emerge da combinação entre (1) qual via de hidroxilação predomina (CYP1A1 vs CYP1B1), (2) quão eficiente é a neutralização de catecolestrogênios (COMT, NQO1, GST) e (3) quanto estrogênio conjugado volta a ser reativado e recirculado no intestino (estroboloma/β-glucuronidase). Essa abordagem transforma um tema amplo em um raciocínio mecanístico e clinicamente acionável.



Manual do Prescritor LabRx

Se o objetivo é contextualizar a exposição estrogênica de forma funcional, é útil incluir o componente intestinal da recirculação. No Manual do Prescritor da LabRx, o eixo estroboloma–estrogênio é descrito a partir do papel da β-glucuronidase intestinal na desconjugação e reabsorção de estrogênios. Nesse contexto, o CoproOne® Estroboloma mensura a atividade fecal de β-glucuronidase, fornecendo um marcador funcional para inferir tendência à recirculação entero-hepática de estrogênios e, portanto, um componente relevante para interpretar a carga de substrato hormonal que alimenta as rotas CYP1A1/CYP1B1 e a necessidade de preservar vias protetoras como a metilação por COMT.


Referências:

LABRX. Manual do Prescritor - LabRx.

VIRTOS, André; SUGIYAMA, Mitiko; VIRTOS, Odair. Estroboloma: A β-glucuronidase intestinal como elo entre microbiota, hormônios e saúde da mulher. 2025

ANDROUTSOPOULOS, V. P.; TSATSAKIS, A. M.; SPANDIDOS, D. A. Cytochrome P450 CYP1A1: wider roles in cancer progression and prevention. BMC Cancer, v. 9, p. 187, 2009.BLACKBURN, H. L.; ELLSWORTH, D. L.; SHRIVER, C. D.; ELLSWORTH, R. E. Role of cytochrome P450 genes in breast cancer etiology and treatment: effects on estrogen biosynthesis, metabolism, and response to endocrine therapy. Cancer Causes & Control, 2014.CHUN, Y.-J.; KIM, S. CYP1B1 polymorphisms and risk of breast cancer. Toxicological Research, v. 32, n. 2, p. 89-93, 2016.DAWLING, S.; ROODI, N.; MERNAUGH, R. L.; WANG, X.; PARL, F. F. Methoxyestrogens exert feedback inhibition on cytochrome P450 1A1 and 1B1. Cancer Research, v. 63, n. 12, p. 3127-3132, 2003.JEFCOATE, C. R. et al. Tissue-specific synthesis and oxidative metabolism of estrogens. Journal of the National Cancer Institute Monographs, n. 27, p. 95-112, 2000. LU, F. et al. Inhibition of catechol-O-methyltransferase increases estrogen-DNA adduct formation in MCF-10A cells. Journal of Steroid Biochemistry & Molecular Biology, v. 105, p. 150-158, 2007.MARTÍNEZ-RAMÍREZ, O. C. et al. Differences in 4-hydroxyestradiol levels in leukocytes are related to CYP1A1 2C, CYP1B1 3, and COMT Val158Met polymorphisms. Steroids, v. 102, p. 1-6, 2015.PARL, F. F. et al. Estrogen metabolism and breast cancer: a risk model. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1155, p. 68-75, 2009.YAGER, J. D. Mechanisms of Estrogen Carcinogenesis: The Role of E2/E1-Quinone Metabolites Suggests New Approaches to Preventive Intervention – A Review. Steroids, 2014.


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