Alfa-1-Antitripsina (A1AT) fecal: como interpretar perda proteica intestinal e integridade da mucosa
- André Virtos
- Jan 12
- 4 min read
A Alfa-1-Antitripsina (A1AT) é uma glicoproteína plasmática de alto peso molecular, sintetizada principalmente no fígado, com função central de inibir enzimas proteolíticas. No contexto gastrointestinal, sua utilidade clínica muda de eixo: por não atravessar uma mucosa íntegra em condições fisiológicas e por ser resistente à degradação luminal, sua presença aumentada nas fezes passa a refletir extravasamento de proteínas plasmáticas para o lúmen, caracterizando perda proteica intestinal ativa (enteropatia perdedora de proteínas). Assim, a A1AT fecal funciona como um indicador direto de comprometimento estrutural da barreira vascular-epitelial, ajudando a diferenciar “irritação funcional” de ruptura com perda de função.
O que a Alfa-1-Antitripsina fecal mede, na prática
A leitura correta da A1AT fecal é: não é um marcador “de inflamação” isolado; é um marcador de consequência do dano de barreira, traduzindo perda proteica por aumento de permeabilidade e extravasamento. A elevação pode ocorrer por múltiplos mecanismos, incluindo:
Inflamação mucosa aguda ou crônica, com ruptura/alteração de junções e integridade epitelial;
Aumento da pressão linfática intestinal, favorecendo extravasamento de linfa e proteínas;
Enteropatias perdedoras de proteínas associadas a DII, doença celíaca ativa, neoplasias e enterites infecciosas;
Síndromes inflamatórias sistêmicas e autoimunes, nas quais o intestino atua como “via de escape” proteico;
Estresse oxidativo intestinal persistente, comprometendo renovação epitelial e membranas celulares.
Por que correlacionar com zonulina, calprotectina e lactoferrina
Dentro do modelo de interpretação do CoproOne® Disbiose, a A1AT integra o eixo de barreira intestinal junto com a zonulina:
Zonulina: traduz hiperpermeabilidade funcional, regulando abertura de tight junctions.
A1AT fecal: quando elevada, aponta permeabilidade estrutural com extravasamento proteico (perda funcional).
Já a correlação com calprotectina e lactoferrina define se o cenário é predominantemente inflamatório e qual o “peso” orgânico do processo, ajudando a separar inflamação leve/reacional de inflamação persistente com lesão estrutural relevante.
Interpretação clínica no CoproOne® Disbiose
No CoproOne® Disbiose, a A1AT fecal é reportada em mg/dL, com valor de referência <26,8mg/dL e faixas de interpretação clínica associadas.
<26,8mg/dL: Sugere mucosa íntegra, sem perda proteica significativa. Quando acompanha calprotectina e lactoferrina baixas, reforça estabilidade estrutural e baixo sinal inflamatório de mucosa.
Próximo ao limite superior: Sugere hiperpermeabilidade incipiente, frequentemente associada a irritação mucosa funcional, disbiose reacional, uso de AINEs ou dieta inflamatória. Nessa faixa, o valor clínico está no acompanhamento evolutivo, especialmente se a zonulina estiver elevada (padrão de barreira em transição).
>26,8mg/dL: Indica perda proteica intestinal ativa, compatível com enteropatia inflamatória, linfangiectasia, doença celíaca, infecção ou processo neoplásico. Aqui, a correlação com calprotectina e lactoferrina é decisiva para definir o componente inflamatório e a necessidade de investigação complementar. Valores persistentemente elevados sugerem comprometimento estrutural da barreira intestinal e merecem aprofundamento diagnóstico conforme o contexto clínico.
A1AT e mucosa intestinal: além de “vazamento”, há resposta local
Embora a A1AT seja classicamente considerada uma proteína plasmática, há evidências experimentais de que células epiteliais intestinais podem participar da dinâmica local dessa proteína, com modulação por citocinas pró-inflamatórias específicas (ex.: IL-8 e IL-2) em modelo de enterócito (Caco-2), sugerindo que a mucosa também integra uma resposta protetora anti-protease/anti-inflamatória diante do microambiente inflamatório.
Na prática clínica, porém, o ponto-chave permanece: A1AT fecal elevada é um sinal de perda proteica e falha de barreira, e não apenas “inflamação inespecífica”.
Ao interpretar a A1AT fecal, o foco deve ser identificar se o paciente está em um estado de barreira fragilizada (zonulina alta com A1AT limítrofe) ou em barreira rompida com perda funcional (A1AT elevada), e então integrar essa leitura com os marcadores inflamatórios (calprotectina/lactoferrina) e com o eixo digestivo (elastase/ácidos biliares) para reconstruir a fisiologia intestinal em camadas.
Para o prescritor que deseja usar a A1AT fecal como marcador de decisão clínica (e não apenas como “mais um número”), o Manual do Prescritor LabRx® detalha a leitura integrada do CoproOne® Disbiose, incluindo a lógica hierárquica de interpretação do eixo barreira (zonulina + A1AT) e sua correlação com marcadores inflamatórios e digestivos, permitindo identificar quando há hiperpermeabilidade funcional versus perda proteica por dano estrutural e orientar o acompanhamento evolutivo com maior precisão.
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