Calprotectina fecal: interpretação clínica e uso estratégico na triagem e monitorização de inflamação intestinal
- André Virtos
- 6 days ago
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A calprotectina fecal consolidou-se como um dos biomarcadores não invasivos mais úteis para inferir inflamação intestinal de predominância neutrofílica, com aplicações diretas na triagem de sintomas gastrointestinais, no acompanhamento de doença inflamatória intestinal (DII) e na tomada de decisão sobre necessidade de endoscopia. Seu valor clínico não está em “diagnosticar” uma etiologia específica, mas em separar cenários com alta probabilidade de inflamação mucosa ativa daqueles em que essa hipótese é improvável, além de permitir monitorização seriada com custo biológico e logístico reduzidos.
O que a calprotectina mede na prática
A calprotectina é um complexo proteico (S100A8/S100A9) altamente expresso por neutrófilos. Na inflamação da mucosa, o recrutamento e a migração transepitelial dessas células para o lúmen aumentam a liberação do complexo, elevando sua concentração nas fezes. Por isso, na clínica, a calprotectina fecal funciona como marcador indireto de tráfego/ativação neutrofílica na mucosa, com boa correlação com atividade inflamatória em DII, especialmente quando o alvo terapêutico é atividade endoscópica/mucosal healing.
Por que é um biomarcador fecal robusto: estabilidade e pré-analítica
Uma vantagem operacional importante é a estabilidade relativa da calprotectina em amostras fecais, o que favorece coleta domiciliar e transporte até o laboratório. Estudos descrevem estabilidade em temperatura ambiente por vários dias (em torno de 4 a 7 dias, conforme metodologia e condições), reduzindo o risco de perda analítica por degradação em comparação com outros alvos fecais mais lábeis.
Ponto crítico para interpretação clínica: valores absolutos podem variar entre métodos e kits. Portanto, a leitura deve respeitar unidades, faixa de referência e algoritmo do ensaio utilizado, principalmente na chamada “zona cinzenta”.
Interpretação clínica por faixas: como ler “zonas” e não apenas um número
Na prática, a calprotectina é mais útil quando interpretada em faixas de decisão e, quando possível, em tendência temporal (série). Uma proposta operacional frequentemente adotada é:
Zona verde (<50µg/g): valores baixos tornam improvável inflamação endoscópica ativa.
Zona cinzenta (50µg/g - 150µg/g): valores intermediários exigem correlação com clínica, repetição do teste e avaliação de confundidores.
Zona vermelha(>150µg/g): valores mais altos sustentam maior probabilidade de inflamação mucosa relevante e indicam investigação/conduta ativa.
Na triagem DII vs. distúrbios funcionais: em coortes que compararam DII e síndrome do intestino irritável (SII), um ponto de corte de 50µg/g foi usado para discriminar grupos, com desempenho dependente do contexto e prevalência.
Aplicações clínicas com maior impacto
1) Triagem de DII em pacientes com sintomas inespecíficos
Em cenários de diarreia crônica, dor abdominal e alteração do hábito intestinal, a calprotectina auxilia a priorizar investigação endoscópica ao indicar maior probabilidade de inflamação. Em meta-análises, a calprotectina apresenta boa sensibilidade para triagem de DII, com desempenho variando por população e ponto de corte.
Na prática, isso se traduz em uma estratégia racional:
Baixa calprotectina: favorece abordagem conservadora e investigação de causas funcionais/metabólicas.
Calprotectina elevada: aumenta a probabilidade de doença orgânica inflamatória e justifica investigação direcionada.
2) Monitorização de atividade endoscópica e mucosal healing em DII
Quando o objetivo é inferir atividade mucosa sem repetir endoscopia com alta frequência, a calprotectina se destaca. Em estudo com pacientes com Crohn e retocolite, os níveis fecais correlacionaram com escores endoscópicos e um limiar de 250µg/g foi associado a presença de ulcerações e atividade endoscópica, com utilidade também para sugerir remissão endoscópica em determinados critérios operacionais do estudo.
Mensagem prática: em DII conhecida, a calprotectina tende a performar melhor quando usada para rastrear atividade mucosa, guiar necessidade de endoscopia e acompanhar resposta terapêutica de forma seriada, em vez de tentar espelhar sintomas (especialmente em Crohn, onde a correlação sintoma-lesão pode ser fraca).
3) Predição de recaída e acompanhamento longitudinal
A calprotectina também é usada como marcador de risco de recaída e piora inflamatória. Em estudos clássicos de acompanhamento, níveis mais altos em fase de remissão clínica associaram-se a maior probabilidade de recidiva, reforçando seu valor para estratificação e seguimento.
Principais armadilhas: falso-positivos e confundidores
A calprotectina é marcador de inflamação, não de etiologia. Portanto, elevações podem ocorrer fora de DII, e isso precisa estar explícito na interpretação:
Infecções gastrointestinais, especialmente bacterianas, podem elevar significativamente o marcador.
Enteropatia por AINEs (NSAIDs) pode aumentar calprotectina, inclusive com elevação em poucos dias de uso, o que pode simular inflamação orgânica.
Neoplasias e outras condições orgânicas do trato gastrointestinal podem elevar o marcador, o que exige correlação clínica e investigação dirigida quando indicado.
Em DII, fatores como topografia (ex.: doença ileal isolada) podem reduzir a “força” da correlação com lesão mucosa em alguns contextos, reforçando que a calprotectina deve ser interpretada em conjunto com história, exames e objetivo clínico.
Integração com painéis fecais: por que a calprotectina não deve ser analisada isoladamente
Em rotinas de gastroenterologia funcional e integrativa, a leitura isolada da calprotectina pode perder resolução clínica. A utilidade aumenta quando o biomarcador é analisado junto a outros parâmetros fecais que ajudam a qualificar o processo:
Se o eixo é inflamação neutrofílica, marcadores como calprotectina e lactoferrina tendem a ser complementares.
Se o eixo é barreira/hiperpermeabilidade, a correlação com marcadores de permeabilidade e resposta imune de mucosa ajuda a construir hipótese funcional.
Se o quadro sugere distúrbio funcional com imunidade mucosa alterada, painéis que incluem mediadores e marcadores adicionais podem orientar condutas mais personalizadas.
No contexto dos exames coprológicos especiais, a calprotectina integra o CoproOne® Disbiose, compondo um painel que busca interpretar simultaneamente inflamação, integridade de barreira e resposta mucosa, favorecendo uma leitura sindrômica mais precisa do trato gastrointestinal.
Ao final, o melhor uso clínico da calprotectina é aquele em que o número se transforma em decisão: triagem, necessidade de endoscopia, monitorização seriada e interpretação integrada com quadro clínico e outros marcadores fecais relevantes, reduzindo tanto subinvestigação quanto exames invasivos desnecessários.
Para aprofundar a interpretação por cenários clínicos e alinhar a leitura da calprotectina aos demais biomarcadores fecais utilizados na prática, o Manual do Prescritor LabRx reúne a base técnica dos parâmetros, racional de uso e referências científicas que sustentam a aplicação dos marcadores em painéis como o CoproOne® Disbiose, facilitando a padronização da conduta e a correlação com hipóteses fisiopatológicas.
Referências
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