Lactoferrina fecal: biomarcador de atividade neutrofílica
- André Virtos
- 4 days ago
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Em quadros de dor abdominal, diarreia, muco ou sangue nas fezes, a decisão clínica mais crítica costuma ser separar processos funcionais (ex.: síndrome do intestino irritável) de inflamação intestinal orgânica, além de acompanhar a resposta terapêutica sem depender exclusivamente de endoscopia. Nesse contexto, a lactoferrina fecal se consolidou como um marcador não invasivo de migração e ativação de neutrófilos na mucosa intestinal, com aplicabilidade tanto na triagem quanto no monitoramento de atividade inflamatória. A leitura correta, porém, depende de entender o que a lactoferrina representa biologicamente, como ela se comporta no lúmen intestinal e, principalmente, como se complementa com a calprotectina fecal quando ambos são analisados em conjunto.
O que é a lactoferrina e por que ela aparece nas fezes
A lactoferrina é uma glicoproteína ligadora de ferro (≈76kDa), presente em diversas secreções e, sobretudo, como componente relevante dos grânulos secundários de neutrófilos. Durante a inflamação, neutrófilos infiltram a mucosa e, ao sofrerem ativação e degranulação, liberam lactoferrina. Parte desse conteúdo alcança o lúmen, elevando sua concentração nas fezes, de modo proporcional à translocação de neutrófilos para o trato gastrointestinal.
Além de servir como “marcador de presença neutrofílica”, a lactoferrina participa de mecanismos de defesa inata e resposta inflamatória: modula disponibilidade de ferro, interage com superfícies microbianas e pode influenciar sinalização imunológica local. Na prática, isso explica por que aumentos fecais podem ocorrer tanto em DII quanto em colites infecciosas e outras condições com inflamação neutrofílica intestinal.
Lactoferrina fecal como marcador de inflamação intestinal neutrofílica
Em termos práticos, lactoferrina fecal positiva sustenta a presença de inflamação intestinal com participação neutrofílica. Em revisões clínicas, a lactoferrina mostrou boa precisão diagnóstica para diferenciar doença orgânica inflamatória de quadros funcionais, com médias reportadas de sensibilidade ~80% e especificidade ~82% para identificação de DII em populações estudadas.
Um detalhe interpretativo essencial é que resultado negativo não “descarta doença intestinal” de forma ampla: ele deve ser lido como ausência de inflamação neutrofílica intestinal significativa. Isso é particularmente relevante em cenários nos quais sintomas são desproporcionais ao grau inflamatório objetivo, ou em doenças com acometimento predominantemente ileal e baixa excreção fecal de proteínas neutrofílicas.
Onde a lactoferrina fecal agrega mais na prática clínica
1) Triagem de inflamação em pacientes com dor abdominal e diarreia
Em pacientes com queixas compatíveis com SII, mas com sinais de alarme (perda ponderal, anemia, sangue nas fezes, febre, história familiar de DII etc.), a lactoferrina pode atuar como ferramenta de triagem não invasiva para selecionar quem se beneficia de investigação endoscópica e/ou microbiológica prioritária. Ela tende a ser mais informativa quando a dúvida principal é: há inflamação neutrofílica intestinal em curso?
2) Suspeita de diarreia infecciosa invasiva e colite aguda
Na diarreia aguda, especialmente quando há febre, sangue, tenesmo ou sinais sistêmicos, lactoferrina elevada sugere atividade neutrofílica luminal compatível com inflamação colônica, podendo apoiar a decisão de avançar com cultura/PAINEL etiológico e conduta antimicrobiana quando indicada. Em estudos pediátricos, níveis fecais mais altos se associaram a quadros com maior inflamação colônica e a maior probabilidade de agentes bacterianos invasivos em comparação com alguns vírus entéricos.
3) Monitoramento de resposta terapêutica e “mucosal healing” em DII
Para acompanhamento de DII, a lactoferrina se comporta como marcador dinâmico de inflamação mucosa. Em séries clínicas com terapia anti-TNF, observou-se queda rápida de lactoferrina fecal em respondedores, coerente com redução de inflamação ao nível da mucosa. Na prática, queda sustentada tende a apoiar resposta inflamatória objetiva, enquanto elevações persistentes sugerem atividade em curso, necessidade de reavaliação terapêutica e/ou investigação de causas associadas (infecção, adesão, localização/estenose, etc.).
Lactoferrina e calprotectina juntas: leitura integrada e cenários de discordância
Calprotectina fecal e lactoferrina fecal são, hoje, os dois marcadores fecais mais utilizados para inflamação intestinal por refletirem, direta ou indiretamente, a presença/atividade de neutrófilos. Apesar de caminhar juntas em muitos cenários, a interpretação conjunta é mais rica quando se reconhece que elas não são redundantes:
Calprotectina tende a refletir o grau de ativação inflamatória global no trato intestinal, funcionando como um “termômetro” robusto para inflamação intestinal em geral.
Lactoferrina se comporta como um marcador mais ligado à fase aguda ativa e à ativação neutrofílica recente/transitória, podendo se elevar em cenários em que a calprotectina está mais estável.
Essa diferença fisiopatológica é clinicamente útil para refinar hipóteses e timing do processo inflamatório.
Interpretação prática dos resultados combinados
1) Calprotectina alta + lactoferrina alta
Sugere inflamação neutrofílica intestinal ativa com maior probabilidade de relevância clínica. É o cenário típico de DII ativa (especialmente com envolvimento colônico) e também pode ocorrer em colites infecciosas invasivas. Aqui, a conduta costuma ser direcionada à investigação da etiologia e à avaliação de extensão/gravidade conforme o contexto.
2) Calprotectina alta + lactoferrina baixa ou discretamente alterada
Pode ocorrer quando há inflamação intestinal mais “constante/crônica” ou menos marcada por degranulação neutrofílica recente. Também pode aparecer por variáveis pré-analíticas e heterogeneidade espacial da inflamação (distribuição segmentar). Nessa situação, faz sentido correlacionar com:
localização provável (colônica vs ileal),
sintomas e sinais sistêmicos,
uso de fármacos que elevam marcadores fecais (ex.: AINEs),
necessidade de repetir coleta/avaliar tendência.
3) Calprotectina normal + lactoferrina alta
Embora menos comum, é um cenário que merece atenção: por a lactoferrina poder sinalizar ativação neutrofílica mais recente, pode aparecer em episódios agudos (ex.: colite infecciosa em fase inicial/recente) ou em exacerbações transitórias. Também pode sugerir que a calprotectina ainda não capturou a mesma dinâmica temporal, reforçando o valor de repetir e observar tendência.
4) Calprotectina normal + lactoferrina normal
Sustenta ausência de inflamação neutrofílica intestinal relevante no momento. Em paciente sintomático, esse padrão favorece mecanismos funcionais e/ou inflamações não neutrofílicas, sem excluir outras causas extraintestinais ou distúrbios de motilidade/hipersensibilidade visceral.
Como ler valores no contexto do CoproOne® Disbiose
No CoproOne® Disbiose, a lactoferrina é reportada em µg/mL, com valor de referência <7,2µg/mL. De forma objetiva, valores abaixo desse ponto de corte são compatíveis com ausência de inflamação neutrofílica intestinal relevante no momento da coleta. Já a calprotectina é expressa em µg/g, com interpretação prática por faixas:
<50µg/g: baixa probabilidade de inflamação intestinal ativa.
50–150µg/g: zona intermediária, exigindo correlação clínica e, com frequência, reavaliação.
>150µg/g: alta probabilidade de processo inflamatório intestinal ativo.
O ganho real surge quando as duas são interpretadas como eixos complementares: calprotectina como leitura de intensidade inflamatória global e lactoferrina como sinal de atividade neutrofílica mais aguda/recente, refinando timing e probabilidade de gatilhos (incluindo infecciosos).
Ao integrar lactoferrina e calprotectina, a prática clínica tende a ficar mais objetiva: a dupla oferece um retrato mais consistente de presença, intensidade e dinâmica da inflamação neutrofílica intestinal, orientando melhor quando observar, repetir, investigar etiologia ou escalar tratamento.
No Manual do Prescritor LabRx, a lactoferrina fecal e a calprotectina fecal são detalhadas com foco em fundamentação fisiopatológica, faixas interpretativas e aplicações clínicas, incluindo o racional de leitura integrada dos dois marcadores no contexto do CoproOne® Disbiose. Essa abordagem é particularmente útil para padronizar condutas de triagem, monitoramento longitudinal e correlação com sintomas, terapias e hipóteses etiológicas.
Referências
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