Enzima DAO: função na depuração extracelular da histamina e implicações clínicas na intolerância histamínica
- André Virtos
- Dec 16, 2025
- 5 min read
A Enzima DAO (diamina oxidase) é um dos principais determinantes da tolerância do organismo à histamina proveniente da dieta. A intolerância à histamina pode ser entendida como um desequilíbrio entre a carga de histamina (ingestão, produção e liberação) e a capacidade de degradação, em que a DAO ocupa papel central para o metabolismo da histamina ingerida . Na prática clínica, a discussão sobre DAO ganha relevância quando sintomas multissistêmicos surgem após alimentos ricos em histamina, álcool ou fármacos que aumentam liberação de histamina ou inibem a degradação — um cenário que frequentemente cursa com investigação alergológica negativa e, por isso, tende a ser subdiagnosticado.
O que é a Enzima DAO e por que ela é estratégica no metabolismo da histamina
A histamina pode ser metabolizada por duas vias principais: (1) desaminação oxidativa pela DAO e (2) metilação pela histamina-N-metiltransferase (HNMT). A diferença funcional é crítica: a DAO é descrita como uma proteína secretória responsável pela degradação da histamina extracelular, enquanto a HNMT (citosólica) inativa histamina intracelularmente, por exemplo no fígado. Por isso, a Enzima DAO tende a ser particularmente relevante como “primeira linha” contra a histamina dietética.
Do ponto de vista bioquímico, a DAO catalisa a desaminação oxidativa da histamina e também de outras diaminas (como putrescina e cadaverina). Esse detalhe é clinicamente importante porque outras aminas biógenas podem competir por essa via metabólica.
DAO como barreira intestinal: localização, dependência da mucosa e competição por substrato
Modelos experimentais e discussões mecanísticas reforçam que a desaminação oxidativa predomina na mucosa intestinal e que a DAO está localizada principalmente no intestino delgado. Em humanos, descreve-se que a histamina ingerida é catabolizada por DAO na mucosa jejunal.
Três moduladores se destacam:
Integridade da mucosa/enterócitos: a produção de DAO pode ser reduzida por dano aos enterócitos em doenças gastrointestinais.
Competição por substrato: putrescina ou tiramina, presentes em alimentos e bebidas, também são catabolizadas por DAO e podem inibir competitivamente a degradação de histamina.
Álcool e fármacos: álcool e medicamentos podem inibir a DAO ; além disso, há descrição de que o álcool pode facilitar a absorção enteral de histamina e inibir DAO via acetaldeído.
No referencial institucional da LabRx, a atividade de DAO é tratada como uma via lenta e regulada, dependente da expressão intestinal, do estado funcional da mucosa e da disponibilidade de cofatores (vitamina B6, cobre, zinco e vitamina C). Também se descreve modulação negativa por citocinas inflamatórias (TNF-α e IL-6) e inibição competitiva por classes farmacológicas (como antidepressivos, anti-inflamatórios, antibióticos e opioides).
Como a baixa atividade de DAO aparece na clínica
A intolerância à histamina é associada a sintomas em múltiplos órgãos após exposição a alimentos ricos em histamina, álcool ou fármacos liberadores/inibidores de DAO . Em séries clínicas, a intolerância induzida por histamina é caracterizada como não mediada por IgE, com testes cutâneos e IgE específica tipicamente negativos, mas com sintomas “alérgicos” (p.ex., espirros, rubor, prurido, diarreia e até dispneia) associados à hipótese de degradação diminuída por deficiência de DAO .
Do ponto de vista de fisiologia clínica, isso é coerente com o conceito de que a Enzima DAO pode atuar como “scavenger” (depurador) de histamina extracelular após liberação de mediadores.
Interpretação funcional: DAO e histamina como “duas velocidades” do sistema histamínico
Uma armadilha comum é tratar DAO e histamina como “opostos diretos”. No racional do Manual do Prescritor, a histamina tende a refletir um componente mais agudo e flutuante, enquanto a atividade de DAO traduz uma capacidade crônica de eliminação (lenta e regulada). Essa defasagem explica cenários como: histamina normal com DAO baixa (reserva metabólica reduzida) ou histamina alta com DAO normal (sobrecarga momentânea).
O Manual descreve a leitura conjunta (fenótipos) de forma funcional:
Histamina elevada + DAO baixa: fenótipo clássico de intolerância histamínica, com acúmulo e sintomas recorrentes
Histamina elevada + DAO normal: sugere sobrecarga transitória (ex.: liberação mastocitária, disbiose, infecção, estresse oxidativo)
Histamina normal + DAO baixa: indica reserva reduzida e predisposição a sintomas com cargas moderadas
Histamina e DAO normais: homeostase funcional
Por que medir Enzima DAO junto com histamina melhora o raciocínio clínico
Quando a DAO é normal, mas o quadro clínico é sugestivo, a mensuração de histamina pode ser útil como complemento diagnóstico. O inverso também é verdadeiro: um paciente pode estar com histamina em faixa normal, mas com DAO baixa, refletindo tolerância instável e risco de sintomas com pequenas exposições. Esse é o fundamento de tratar o sistema como duas velocidades metabólicas e não como uma relação linear simples.
Enzima DAO no contexto do DBS® Intolerância Histamínica
O Manual do Prescritor descreve que o DBS® Intolerância Histamínica permite visualizar o descompasso entre histamina e DAO “em tempo real”, quantificando cada uma isoladamente e correlacionando clinicamente. Além disso, aponta como vantagem metodológica a avaliação dos dois parâmetros no mesmo momento fisiológico, sem interferência alimentar imediata, favorecendo uma leitura funcional.
Na aplicabilidade clínica, o Manual sugere que essa estratificação pode orientar condutas específicas (p.ex., reduzir alimentos ricos em histamina e aminas biógenas, suporte de cofatores e ajuste de fármacos inibidores), evitando restrições desnecessárias quando o problema é transitório e não de depuração crônica.
A Enzima DAO, portanto, deve ser entendida como um marcador funcional de capacidade de depuração extracelular/intestino-dependente, cuja interpretação é mais robusta quando integrada a histamina, mucosa intestinal, cofatores e exposição a inibidores.
Para aprofundar a interpretação de Enzima DAO em diferentes perfis (faixas funcionais, integração com histamina e fatores interferentes como cofatores, inflamação e fármacos), consulte o Manual do Prescritor – LabRx, que detalha a leitura fisiológica conjunta no DBS® Intolerância Histamínica e os cenários clínicos mais compatíveis com depuração lenta versus sobrecarga aguda.
Referências:
LABRX. Manual do Prescritor – LabRx. Brasil: LabRx
MAINTZ, L.; BIEBER, T.; NOVAK, N. Histamine intolerance in clinical practice. Deutsches Ärzteblatt International, v. 103, n. 51–52, p. A3477–A3483, 2006.
SATTLER, J.; HAFNER, D.; KLOTTER, H.-J.; LORENZ, W.; WAGNER, P. K. Food-induced histaminosis as an epidemiological problem: plasma histamine elevation and haemodynamic alterations after oral histamine administration and blockade of diamine oxidase (DAO). Agents and Actions, v. 23, p. 361–365, 1988.
TUFVESSON, G.; TRYDING, N. Determination of diamine oxidase activity in normal human blood serum. Scandinavian Journal of Clinical and Laboratory Investigation, v. 24, p. 163–168, 1969.
WANTKE, F.; PROUD, D.; SIEKIERSKI, E.; KAGEY-SOBOTKA, A. Daily variations of serum diamine oxidase and the influence of H1 and H2 blockers: a critical approach to routine diamine oxidase assessment. Inflammation Research, v. 47, n. 9, p. 396–400, 1998.
WANTKE, F.; GÖTZ, M.; JARISCH, R. Histamine-free diet: treatment of choice for histamine-induced food intolerance and supporting treatment for chronic headaches. Clinical and Experimental Allergy, v. 23, p. 982–985, 1993.
WANTKE, F.; GOTZ, M.; JARISCH, R. The red wine provocation test: intolerance to histamine as a model for food intolerance. Allergy Proceedings, v. 15, n. 1, p. 27–32, 1994.
WANTKE, F.; HEMMER, W.; FOCKE, M.; HAGLMÜLLER, T.; GÖTZ, M.; JARISCH, R. The red wine maximization test: drinking histamine-rich wine induces a transient increase in plasma diamine oxidase activity in healthy volunteers. Inflammation Research, v. 48, p. 169–170, 1999.
JARISCH, R.; BERINGER, K.; HEMMER, W. Role of food allergy and food intolerance in recurrent urticaria. In: WÜTHRICH, B. (ed.). The Atopy Syndrome in the Third Millennium. Basel: Karger, 1999. p. 64–73.



Comments