Exame de hormônios na saliva: para que serve a dosagem do SalivaCare®
- André Virtos
- Dec 18, 2025
- 4 min read
Quando o paciente pesquisa sobre exames de hormônios na saliva, quase sempre está tentando entender por que a saliva pode ser usada para avaliar hormônios e o que, de fato, esse tipo de análise entrega clinicamente. Em hormônios esteroides (como cortisol, progesterona, testosterona e estrogênios), a saliva é uma matriz especialmente útil porque a entrada dessas moléculas ocorre predominantemente por difusão para a secreção salivar, o que favorece a leitura da fração biologicamente ativa (não ligada a proteínas) em vários contextos clínicos. Isso abre espaço para avaliações seriadas ao longo do dia (curvas), com foco em ritmo circadiano e integração de eixos (adrenal e gonadal), além de incluir marcadores de mucosa como IgA secretora.
O que é, na prática, o exame de hormônios na saliva
O exame de hormônios na saliva é uma análise laboratorial feita a partir de amostras de saliva, coletadas em horários específicos (quando o objetivo é curva) ou em um momento definido (quando o objetivo é “ponto único”), para dosar hormônios e marcadores relacionados. A lógica fisiológica é que, para muitos esteroides, a saliva pode refletir a fração livre circulante, ou seja, a fração mais diretamente disponível para ação tecidual.
Exame da saliva: para que serve o SalivaCare®
O SalivaCare® é um painel voltado à cronobiologia, estresse adrenal, saturação do eixo HPA (hipotálamo–hipófise–adrenal) e avaliação de níveis hormonais em tecidos-alvo, integrando dados do eixo adrenal e do eixo gonadal. Em outras palavras, o “para que serve” não é apenas “ver se o hormônio está alto ou baixo”, mas organizar uma leitura funcional de ritmos, relações entre hormônios e equilíbrio entre eixos.
Quais parâmetros o SalivaCare® analisa
O SalivaCare® inclui os seguintes parâmetros:
Curva de cortisol
Melatonina
IgA secretora
S-DHEA (DHEA-S)
DHEA
Progesterona
Estrona
Estradiol
Testosterona
17-OH progesterona
Curva de cortisol
O cortisol é um hormônio central do eixo HPA e varia ao longo do dia. A avaliação em curva permite observar o desenho desse ritmo, o que costuma ser mais informativo do que uma medida isolada. Na prática, a curva ajuda a entender se o padrão diário está organizado (picos e quedas esperados) ou se há sinais de desregulação do ritmo.
Melatonina
A melatonina é um marcador-chave do período noturno e da sinalização de “janela biológica” para desaceleração e recuperação. Em saliva, sua utilidade é apoiar a análise de cronobiologia, especialmente quando o objetivo é correlacionar sinais clínicos com o alinhamento (ou desalinhamento) do ritmo circadiano.
DHEA e S-DHEA (DHEA-S)
DHEA e DHEA-S são esteroides relacionados à função adrenal e à disponibilidade de precursores hormonais. No painel, sua leitura é particularmente útil quando integrada ao cortisol, porque a relação entre esses marcadores tende a oferecer uma visão mais completa do balanço do eixo adrenal ao longo do tempo, em vez de uma interpretação “isolada”.
Progesterona
A progesterona varia conforme fase do ciclo, idade e contexto fisiológico. Em interpretação funcional, costuma ser avaliada em conjunto com estrogênios (estradiol e estrona), porque o equilíbrio entre progesterona e estrogênios pode ser determinante para compreender padrões de sintomas e variações ao longo do ciclo.
Estradiol e estrona
Estradiol e estrona são estrogênios relevantes para avaliar exposição estrogênica e equilíbrio com progesterona. A leitura combinada desses marcadores pode ajudar na compreensão do perfil estrogênico global, especialmente quando o objetivo é analisar proporções e coerência fisiológica do conjunto hormonal.
Testosterona
A testosterona salivar pode ser útil para discutir disponibilidade biológica do hormônio em tecidos-alvo, principalmente quando se busca uma leitura mais alinhada à fração ativa. A interpretação deve considerar sexo biológico, fase do ciclo (quando aplicável), horário de coleta e o conjunto do painel.
17-OH progesterona
A 17-OH progesterona é um marcador intermediário na esteroidogênese, conectando vias adrenais e gonadais. Em um painel integrado, tende a ganhar significado quando contextualizada com cortisol, DHEA/DHEA-S e o restante do perfil gonadal, ajudando a mapear o “fluxo” de precursores hormonais.
IgA secretora
A IgA secretora é um marcador de mucosa que pode variar em resposta a desafios fisiológicos e estressores, compondo uma visão neuroimune complementar à avaliação hormonal. Dentro do SalivaCare®, ela amplia a análise além dos esteroides, adicionando um componente relevante para interpretação funcional.
Por que a interpretação deve ser integrada
Em hormônios salivares, o “para que serve” se esclarece quando a análise é feita por padrões e relações, não por valores isolados. Na prática, isso significa:
Priorizar curvas quando a fisiologia é rítmica (como cortisol).
Interpretar esteroides em conjunto (adrenais e gonadais).
Avaliar proporções relevantes (por exemplo, relações entre estrogênios e progesterona).
Considerar o horário e a estratégia de coleta como parte do resultado.
Esse modelo de leitura reduz o risco de conclusões simplistas e favorece decisões clínicas mais coerentes com a dinâmica do eixo avaliado.
Manual do Prescritor LabRx e aplicação clínica do SalivaCare®
Para aprofundar a escolha de horários de coleta, critérios de indicação e lógica de interpretação integrada (curvas, relações e padrões), o conteúdo do Manual do Prescritor da LabRx complementa este tema com orientações práticas voltadas ao uso clínico do SalivaCare®.
Referências: LABRX. Manual do Prescritor – LabRx.
GROESCHL, Michael. Salivary hormone analysis. Clinical Chemistry, v. 54, n. 11, p. 1759–1769, 2008.
GROESCHL, Michael. The physiological role of hormones in saliva. BioEssays, v. 31, p. 843–852, 2009.
TSUJITA, Satoshi; MORIMOTO, Kanehisa. Secretory IgA in saliva can be a useful stress marker. Environmental Health and Preventive Medicine, v. 4, p. 1–8, 1999.
VINING, Ross F.; MCGINLEY, Robynne A.; SYMONS, Richard G. Hormones in saliva: mode of entry and consequent implications for clinical interpretation. Clinical Chemistry, v. 29, n. 10, p. 1752–1756, 1983.

